Thursday, 11 September 2008

Cândida

Cândida era pequena e roliça. Face redonda, cabelo escorrido da cor dos olhos, castanhos, normais. Era a mais velha de sete irmãos. Cândida, Alma, Clemente, Conceição, Serena, Salvador, Vitória. Todos baptizados com nomes indicativos de momentos “fascinantes” das respectivas concepções (devidamente explicadas em idade própria). Ah! É melhor explicar. Cândida era filha de, por palavras dos próprios, um hippie inveterado e de uma destrambelhada de primeira. Love, peace e essas coisas.

A Cândida, dizia a mãe, condicionada pelo nome, era… cândida. Calma, pacífica, despercebida. Aquela a quem ninguém se lembra de ver. A que fica sozinha nas festas. A que se senta na mesa dos pequeninos porque ninguém se lembrou de lhe marcar lugar.

As histórias familiares incluíam deixá-la numa prateleira de uma loja, e outras peripécias contadas entre gargalhadas dos pais, a bem da verdade, nunca jocosas mas antes carregadas de carinho. E também Cândida, dizia a mãe, condicionada pelo nome… não se importava.

Viu-o pela primeira vez no autocarro, a caminho da faculdade. Ela, cândida como o nome, de anorak gordo e cabelo grosseiramente preso num rabo-de-cavalo, parecendo ainda mais nova, ele, garboso, louro, cabelo com axe, olhos verdes.

Era evidente, para ela, que ele não a viu. E porque veria? Pouco dada à exuberância da família, tinha optado, há muito, pela discrição e humildade.

Foi assim durante muito tempo. Tanto que ela deixou de se importar. A sua feminilidade, surgida num meio tão sexualmente free e exuberante tinha sido, por deficiência de formação, cientificamente explorado. Estudou, apesar de só, os recantos e os sentimentos e achava ela que tinha conseguido, como um soldado disciplinado, controlar e esconder sob a capa do recato, a fogosidade descoberta e apreciada.

Um dia, sentada no lugar do costume, com um livro, como costume, no colo, sentiu-o, mais do que viu, sentar-se ao seu lado.

- Olá. Chamo-me José.

- Olá. – levantou os olhos do livro e viram-se directamente, assim tão próximo, pela primeira vez. Sentiu-lhe o cheiro da colónia misturado com o odor do axe. Não lhe disse o nome porque não lhe ocorreu que ele o quisesse saber. Com este olá despiu-o lentamente e esqueceu-se do recato. Esqueceu-se de ser cândida, como o nome, e beijou-lhe a barba com cada letra do seu nome.

- Já nos cruzamos há muito tempo. Vejo-te todos os dias quando entras no autocarro.
Levantou os olhos do livro que tentara retomar.
- Chamo-me Cândida. – desta vez aguentou o olhar.

Em plena Estrada da Circunvalação o autocarro avaria. O condutor, pesaroso, levanta-se e avisa os passageiros enquanto abre as duas portas:
- Meus senhores, este autocarro está avariado. Desçam, por favor, e aguardem o próximo autocarro que passa daqui a meia hora.

Olharam-se e sorriram.
Meia hora inteira.

5 comments:

Van Dog said...

Lindo.

Paulo Cunha Porto said...

Belo relato, com o episódio a dever ser encarado com... candura. Muitas vezes são as aparências menos evidentes que levam a palma, não para já do martírio, mas a da vitória. O segredo estava no isco, digo no livro.
Beijinho

Nocas Verde said...

Van Dog,
Obrigada! :)

Nocas Verde said...

Meu amigo Paulo,
... e não é que é verdade!!! (mas a história não acabou aqui... ups! descuidei-me!)
:)

Luísa said...

Pois, Nocas, já sabemos que vamos ter de esperar meia-hora. Mas nem mais um minuto, sim? ;-)