Wednesday, 17 September 2008

Cândida II

Começaram a sair numa paragem antes da dela e fazer o resto do caminho a pé.

- Porque é que olhaste para mim? Não sou burra. Nem cega. És giro, mais velho. O que sou eu? Não me apetece nada ser uma daquelas do cinema, tipo, aposta ou isso.
- Não sei. A sério. Não sei. Os teus olhos, curiosidade. Isso agora não importa, pois não?

O prazer que sentia com ele era bom. Melhor, pensava sempre. Melhor que bom. Fez um esforço em continuar cândida porque todos agora viam um brilho nos olhos, um sorriso nos lábios, uma alegria no andar. ainda assim, não sabe porquê, nunca se encontraram com amigos. "Por enquanto não", pedia ela.

José, por seu lado, pareceu-lhe compreensivo e paciente.

- Vou ensinar-te o romantismo. - disse um dia com um grande ramos de flores e um cartão

"Se me amas, sorri. Se não, devolve-me, por favor, que tenho mais a quem dar"

É evidente que não conseguiu conter o sorriso mas devolveu-lhe o cartão com "pode ser que precises dele mais tarde". Ele olhou-a e enfiou o cartão no bolso.
- Porque é que ainda não dissestes que me amas?
- Porque ainda não sei se te amo. Estou a ser muito feliz contigo mas não sei se é amor ainda.

Se ela o amava? Como não poderia amar? E também vaidade. Sim, vaidade. Ela, de figura plana, amava passear-se no Fonte nova ao lado dele, alto e magnífico. Ela, experiente apenas nas experiências pessoais, amava os sentimentos e recantos que ele lhe mostrava. Sentia vaidade em ter um namorado assim. Dizê-lo assim declaradamente não conseguia, não para já.

Um dia passaram em frente de uma loja de cofres.
- É aqui que trabalho. - disse ele. - monto cofres. Não é grande coisa, mas dá para pagar as contas.
Cofres? Sorriu.
- O que foi?
Beijou-o.
- Preciso ir para casa estudar.
- Fica mais um pouco, vá. Tens sempre que estudar, estudar. - abraçou-a - vamos lá dentro. Eu tenho a chave...
Desprendeu-se do abraço e insistiu.
- Não posso, a sério. Vemo-nos no Sábado.
- Sábado? Por favor, Cândida, hoje é Domingo! Vais ficar uma semana sem me ver?
- É difícil, confesso, mas tenho um trabalho para entregar na Sexta. Não vou conseguir. Desculpa.
- Mas na Quinta é dia dos namorados. Estava a pensar...
- Zé, não! E isso do dia dos namorados é parvoeira, não achas?
- Mostrar que amamos alguém não é parvoeira. Não para mim. Tenho pena que penses assim!
Afastaram-se zangados.

Pensou que já tinha feito asneira. Caminhou para casa com a sensação que não deveria ser tão desconfiada, tão "científica" e calculista. Um pouco de romantismo poderia ser bom. "Faço-lhe uma surpresa".

Trabalhou e estudou dia e noite e conseguiu terminar o trabalho Quarta à noite. De manhã passou pela faculdade e entregou-o. Seguiu para o Fonte Nova onde comprou na loja de prendas um postal enorme com corações. Escreveu "Amo-te" em letras enormes. Passa na florista e escolhe uma rosa com uma quadra "picante" e lamechas.

- Bom dia, menina, posso ajudar?
- Sim. Queria falar com José F..., por favor.
- Mas a menina quem é?
- A namorada.- sorriu enquanto corava.

O dono da loja ficou a olhar para ela com cara fechada. O sorriso profissional que tinha desvaneceu-se e tornou-se num ar zangado, frio.
Ela ficou sem perceber nada.
Mas não gostou.

3 comments:

Paulo Cunha Porto said...

Querida Nocas,
foi aí que ela tirou a lição que deveria ter retirado da profissão do dito cujo: há situações cujo segredo deve permanecer fechado a sete chaves...
Beijinho

Luísa said...

Isto está a aquecer, Nocas! Uma parede, um cofre, um segredo… ;-)

Nocas Verde said...

Querido Paulo,
Talvez tenha razão, mas tenho para mim que a Cândida, apesar do nome, ou ainda assim, não tem grande vocação para segredos...
beijinho

Querida Luísa,
Obrigada, muito obrigada, pelo interesse.
Prometo notícias breves.
beijinho