Friday, 23 May 2008

Pavlov


Ivan Pavlov (1849-1936), foi um fisiologista russo que recebeu o prêmio Nobel concedido na área de Medicina e Fisiologia em 1904.
E porque recebeu o Nobel?
Porque "descobriu" a existência e funcionamento dos reflexos condicionados
... e ...

Como Funciona o Reflexo Condicionado?

Estímulo -------> Resposta
Estímulo Indiferente + Estímulo Incondicionado (apresentação da carne) ---------> Resposta Incondicionada
Estímulo Indiferente --------> Resposta Condicionada
Por miúdos, o senhor terá sujeito um cão ao estímulo contínuo de tocar uma campaínha imediatamente antes de lhe dar carne.
Ao fim de algum tempo o cão salivava logo que a campínha era tocada, mesmo sem aparecer a carne.
O reflexo condicionado...
Eu, defensora de que temos muitos estímulos e reflexos condicionados e quase nenhuns reflexos e estímulos independentes, ou inatos, inclino-me para reflectir de que seremos, nós raça humana, uma panela cheia daqueles e apenas os fisiológicamente primários passíveis de serem classificados como estes.
Desde logo, o sorriso.
É muito normal a mãe (e eu não fui excepção) deliciar-se com os primeiros esgares das nossas crias recém-nascidas. No entanto, é consensual que estes primeiros esgares não são fruto de sorrisos voluntários mas apenas de espasmos musculares. Nós, mães, condicionamos este reflexo tornando-o como resposta imediata à aproximação da cara ou som materno... e porquê? Porque aquela cria percebe que se "sorrir" irá receber beijinhos e miminhos.
(não vos digo, a bem do nosso bem-estar de sexta-feira, como foi comprovada esta aprendizagem)
Ora somos nós fruto da aprendizagem, que será outro termo para reflexo condicionado. Aprendemos que se fizermos isto, acontece aquilo, e que sempre que aqueloutro acontece deveremos responder com outra reacção. hum... complicado??
Paradigma, ou exemplo acabado de ausência de estímulos condicionados pela vivência em sociedade são, acredito eu, os meninos-selvagens
Estas características humanas, adquirem-se... ou nascem?

O homem é muito mais que a soma matemática da herança genética e do meio ambiente onde foi criado.

Masson diz que “o Homem não tem natureza, mas que tem – ou antes, é uma história”.

Entre muitos, muitos casos de crianças criadas por animais destacam-se duas. “Amala e Kamala” – as meninas lobo e “Victor D’Aveyron”
Amala e Kamala, as meninas-lobo
Na Índia, onde os casos de meninos-lobo foram relativamente numerosos, descobriram-se em 1920, duas crianças, Amala e Kamala, vivendo no meio de uma família de lobos. A primeira tinha cerca de dois anos e veio a morrer cerca de um ano mais tarde. Kamala tinha oito anos e viveu até 1929.

Não tinham nada de humano e o seu comportamento era semelhante ao dos lobos.
Elas caminhavam de “gatas”, apoiando-se sobre os joelhos e cotovelos para os pequenos trajectos e sobre as mãos e os pés para os trajectos longos e rápidos.
Só se alimentavam de carne crua ou podre. Comiam e bebiam como os animais, lançando a cabeça para a frente e lambendo os líquidos.

Foram recolhidas por um missionário inglês e levadas para a Missão, onde permaneciam acabrunhadas e prostradas numa sombra durante todo o dia. Eram, no entanto, activas e ruidosas durante a noite. Procuravam fugir e uivavam.

Nunca choravam ou riam.

Ao fim de seis anos Kamala aprendeu a andar e pouco antes de morrer, com apenas 17 anos, tinha um vocabulário aproximado de 50 palavras.

Chorou pela primeira vez no enterro da irmã agarrada ao seu caixão.

Victor d'Avyron
Num dia de Verão do ano de 1798, numa floresta francesa, foi encontrada por caçadores uma criança selvagem. Levada para Paris, foi observada pelo mais célebre psiquiatra da época, Pinel, que a considerou como um idiota irrecuperável e pelo jovem médico Itard que, ao contrário, considerou ser possível recuperar o atraso provocado não por inferioridade congénita mas pelo seu isolamento total.

Para provar a veracidade das suas razões, Itard pediu a tutela desta criança.

Assim, na sua casa em Batignoles e com a ajuda da sua governanta, Mme Guérin, iniciou a difícil tarefa de desenvolver as faculdades dos sentidos, intelectuais e afectivos de Victor, nome pelo qual se passou a chamar esta criança pelo sua afinidade com o som “ô”.

Victor viveu até aos quarenta anos sempre sob a guarda de Mme. Guérin, a governanta do prof. Itard, numa pequena casa da rua dos Feuillantines que era uma dependência do instituto de surdos-mudos.

Prestava pequenos serviços e vivia tranquilamente.

E a linguagem - terá algum efeito condicionador?
“O regresso, em grego, diz-se nostos. Algos significa sofrimento. A nostalgia é portanto o sofrimento causado pelo desejo insatisfeito de regressar. (...) anoranza, dizem os espanhóis; saudade, dizem os portugueses. Em cada língua, estas palavras possuem um matiz semântico diferente. (...) em inglês, diz-se: homesickness. Ou em alemão: Heimweb. (...) Os checos, a par da palavra nostalgie vinda do grego, têm para a noção o seu próprio substantivo, stesk, e o seu próprio verbo; a mais comovente expressão de amor checa: styska se mi po tobe: tenho nostalgia de ti; não posso suportar a dor da tua ausência.(...) os franceses só podem exprimi-la por meio do substantivo de origem grega e não têm verbo para ela.”
“A Ignorância” – Kundera, Mila, Edições Asa, pg 7
(a continuar...)
Bom fim-de-semana

2 comments:

O Réprobo said...

Bem, Querida Nocas,
grande postal! E não estou a reagir como o cão à campainha, embora salive por mais destes!
Os franceses, por Pierre Hurcade, tentaram definir a nossa Saudade como "Le Regret". É pouco e é pobre. E já agora, qual é a posição da Nocas sobre a dúvida de G. Rowlands, no final de «Uma Outra Mulher», de Woody Allen:
"E fiquei-me, interrogando-me sobre se uma recordação é algo que se tem, ou algo que se perdeu".
Beijinho

Nocas Verde said...

Até os ratos recordam. (começa bem isto... humpf)
Tenho recordações. Do que já perdi mas também do que tenho. Tenho, sim. No presente. Recordo o Pai que perdi. Mas as recordações que tenho permitem que tenha ainda o Pai comigo... pelas recordações que tenho.
Dizia o Espadinha que recordar é viver... o contrário não é, com certeza, verdadeiro. Um viver de recordações será sempre redutor e, no mínimo, triste.
Aceito que se considere esta explicação simplista... e que muito se poderia dizer.
Lembrei-me agora duma conversa ouvida entre um branco e um negro sobre se se poderia ensinar um branco a dançar e cantar soul. Concordemos ou não, considerei a resposta interessante. Dizia o negro que apenas seria possível dançar e cantar soul como fruto de 300 de escravidão...
As recordações são nossas, fazem parte de nós.
Tema interessante, Sir Rép. A considerar em oportunidade futura.
Por agora fico só pela entrada...