Wednesday, 12 September 2007

Bounjour, tristesse

Rodrigo Guedes de Carvalho in Máxima
Não perceberei nunca por que usam contra mim uma das minhas palavras favoritas. Não tenho na tristeza uma inimiga, nem sequer um incómodo. Enervam-me muito mais o fado descarado, a costa da mão levada à fronte, o sofrimento que se esgota na pose. O pessimismo atávico. A angustiante certeza de uma falta de saída. Mas não a tristeza e a sua serenidade, para tantos inexplicável.
(…)
Mas o seu livro é muito triste, dizem-me. Adorei, mas uma pessoa fica de rastos. Nunca entenderei este mas. Porque as coisas que me tocam, rasgam, transportam, fazem de mim gato-sapato não têm um mas. Nem que o mas se chamasse tristeza.
(…)
Como explicar-lhes o prazer (sim, prazer) de ler obras que me levam aos soluços, de ver filmes que me afundam na cadeira, a tremer, cheio de vergonha de me levantar de imediato, não vá alguém descobrir que estou lavado em pranto?
E não tenhais dúvida: adoro rir.Sou, apesar de todos os sinais que tendes como evidentes (desconfiai das evidências), um pobre homem normal que não resiste a uma boa piada inteligente, um sacudir de mágoas. Mas sou um homem que gosta de gostar do sol e da lua, da luz magnífica que fere o olhar e da penumbra fresca. E gostar da vida, do pulsar do coração, dos amigos, do tempo que nos escorre entre os dedos, não me retira uma procura de momentos em que necessito — absolutamente necessito — de me deixar abanar. Deixar-me ir. Fazer uma purga. Fungar. Limpar-me. Recomeçar.
(…)
Como explicar-vos que a minha tristeza, aquela que vos trazem as minhas personagens ou as minhas histórias, é uma tristeza contra a qual luto, que trazer-vos palavras que vos sabem a cuspo e sangue é uma forma de lutarmos juntos contra o cuspo e o sangue e a cobardia e a sujidade que nos rodeiam, que trazer-vos pessoas que ambos detestamos, e desprezamos, e podem até provocar-nos vómitos, é uma maneira, a minha maneira, a maneira trôpega e desajeitada destes que mexem com as palavras, de percebermos, juntos, o que não queremos ser, e o que não permitiremos que nos conspurque a tão curta, tão curta, tão curta existência. E até me lembro que disse um dia numa entrevista que escrever me tinha poupado dinheiro para o psicanalista, e não sei se é assim, mas sei que penso muito em purga, em purga, de braço dado com a tristeza, que para os outros é defeito e para mim é escrever uma coisa horrível, horrível como os nossos pesadelos, e saber que daqui a nada, daqui a nada, fecho o computador e os fantasmas ficam aqui fechados, e eu, que manejo a tristeza como uma salvação, vou lá para dentro enroscar-me na minha mulher que dorme já, feliz, tão feliz, de saber que a tristeza é como os nossos inimigos, mais importante que mantê-los longe, é tê-lo por perto…

2 comments:

Once In a While said...

.. eu que sou chata .. e nunca achei a tristeza salvação de nada .. e ainda acho este senhor algo assim pró .. prefiro o original Bonjour Tristesse da brilhante Françoise Sagan .. ;)

dia bom *
A_Chata ;)

Nocas Verde said...

First
de chata (em TODOS os sentidos da palavra)... não tens nada!!

Second
é verdade que me revejo nalgumas coisas que o dito senhor diz, principalmente na minha pobre leitura do texto, i.e. a tristeza é minha companheira, quero-a bem perto de mim e NUNCA me considerei uma pessoa triste

Third
esta simplória (LOL) gostou IMENSO do filme dele. fiquei por isso com alguma simpatia por ele

Forth
procurarei (sim, confesso não ter lido) o original

last, but certainly NOT least
obrigada pelos teus comentários. Estas oficialmente nomeada como comentadora exclusiva deste lado!!!