Wednesday, 7 January 2009

Bom Ano, Wouddabe!

Saúdo-a com um abraço apertado, porque ela não gosta de abraços e a mim permite que o faça, de cara torcida e um humpf engasgado.
Cara fechada como sempre porque o alto dos seus quinze anos não lhe permitem sorrir.
- queres contar-me alguma coisa? Faz-me o favor de me beijar, menina, que a sua mãe não criou nenhuma mal-educada.
- Só tu, realmente! (…) pronto, já está! O que aconteceu? O que aconteceu, dizes tu? É por isso que te detesto, pá! E achas que precisa de acontecer alguma coisa a mim – bate com força no peito – para estar assim? Só o viver é mau! A crise! A escola! Em casa! O trânsito! Os transportes! – pausa teatral enfrentando-me o olhar – queres que continue? Queres?
- Pois, é verdade. Mas e não ias passar o fim de ano com o … teu novo namorado? Deve ter sido divertido, não?
- Foi, foi. Esta coisa apanhou-me de surpresa. Pensei que por esta altura já teríamos terminado, sabes? Ele na Nazaré, eu em Lisboa. Mas não! E somos tão diferentes! Acreditas que ele não quer ir para a faculdade? Não quer! Não é que não possa ou não tenha inteligência, simplesmente não-quer-ir! É impressionante! Quer acabar o décimo segundo para ir trabalhar. É impressionante!
- E os dois? Como estão?
- Somos tão diferentes! Eu quero viajar, aprender, viver, conhecer coisas novas, pessoas novas, experimentar… ele quer ser feliz. Feliz! É o que ele diz sempre. Feliz! Achas normal?
As palavras são expulsas com ferocidade, raiva, sangue novo. Aguardo eu, faço eu agora uma pausa teatral.
- E os dois – enfatizo – Como estão?
Fita-me de olhos muito abertos. Vejo-lhe a lágrima detestável aparecer.
- Achas possível amar?
- Sabes que sim.
- Pois, casal de pombinhos e tal! humpf! Achas possível eu amá-lo. É que eu não quero, sabes bem! Não quero mesmo.
O trânsito ajuda. Estamos sozinhas e paradas na ponte. Ficamos em silêncio.
- Tinha saudades tuas.
- Eu também.
- E a tua passagem de ano?
- Calma, claro. Em casa como F. e as Crias.
- Apanhei uma tosga descomunal. – olha-me recuperando a raiva – sabes que ele não bebe? Não bebe! Diz que não gosta do que a bebida faz. Diz que gosta da vida que tem e de sentir tudo o que vive! Achas normal? – silêncio – mas foi um querido… no dia seguinte tratou-me e tudo. Quando é que voltas às tuas passagens de ano, hã? Lembras-te? Até às tantas.
- Muito, muito depois de adormeceres cansada ao meu lado. - rimos - é bom estar apaixonada, não é? Confessa, vá!
- É. - os olhos brilham - é bom, sim.
(continua)

2 comments:

once said...

estas saídas de ti mesma são comoventes minha Amiga, se me permites a interpretação .. ;)

é bom estar apaixonada sim .. por ele, pela vida, pelos filhos e acima de tudo .. por nós mesmas. Ego ao Alto .. e vou-me *

Beijito

nocas verde said...

Pois, pois. É o que dá ficar tanto tempo parada na ponte. :)
Comovente? pois... também!

Ego ao alto? Caminho a desbravar como bem sabes.

Resultado? Tenha pena de mim menina que o meu "open space" de agora é ainda mais open e menos space. Não me encabule! :)
kiss