Monday, 12 November 2007

Arte - II

(Agripina Vaganova em Paquita - 1910)

As três questões mais ou menos aceites do que é uma obra de arte tornam-se extremamente ineficazes quando aplicadas às artes performativas, ie, Teatro, Dança e Música.

Mesmo depois de escritas (a peça, a coreografia, a pauta) serão em si obras de arte?

Ou uma peça, uma coreografia, uma pauta poderão ser obras de arte quando executada por este ou aquele, ou desta ou daquela maneira?

Inclino-me para um ponto intermédio. Vejamos um caso (sempre meu, claro) das duas situções:

Peça de Teatro: Mãe Coragem. Ao vivo com Eunice Muñoz. É excelente. Comove, toca, remexe. Se for executada por um qualquer grupo de teatro será que os textos brilham, será que as letras vivem?

Pachelbel tocado por Richard Clayderman... o que dizer? O canone é brilhante, o tocador, nem tanto, nem tanto.

Outro problema que se levanta nas artes performativas não é só as duas vertentes de "criador / executante" mas principalmente a essência efémera destas artes.

Se pensarmos que só por volta da década de trinta, quarenta se começou a gravar coreografias, e que mesmo assim só as peças modernas - os clássicos não permitiram que a câmera desvirtuasse os seus movimentos. Assim perdemos com toda a certeza as performances de virtuosos actores, músicos, bailarinos.
Uma outra problemática na decisão de ser ou não obra de arte está na culturalização, ie, "gosto" de quem observa.
Os preconceitos, o sentido estético, o conhecimento pessoal do artista, até outras obras dele. Tudo influencia o observador e a sua crítica a uma determinada arte.
Será que alguma vez poderemos classificar Tony Carreira como virtuoso ou brilhante? E porque não? Será que a obra de arte só poderá vir de "clássicos", de artes nobres? Será que a obra de arte, ou até a arte, não pode ser popular?
As árias de Verdi eram cantadas pelo povo. Todos cantarolavam as melodias. Em teatros populares, a transandarem a pobre e com animais ali por perto, eis os locais onde se lançaram algumas peças que são hoje consideradas obras de arte.
Diz-se que Shakespeare escrevia "coisinhas" horríveis para ganhar dinheiro.
As ideologias políticas... também condicionam.
As coreografias militares e de milhares, levadas ao seu exponencial máximo nas paradas militares hitlerianas. Será uma obra de arte?
(continua)

1 comment:

Charlie said...

Olá. Para fraseando o que disse Jean Cocteau sobre a poesia: "Sei que a arte é indispensável,
mas não sei a quê...
O povo cantava Verdi.
O nosso, o que sobra desse que deu novos Mundos ao Mundo, esse que deu a esses mundos um homem, ele mesmo em Pessoa, que disse ser a língua a sua Pátria, ouve embevecido um tipo de capachinho com voz melosa que canta banalidades expressas em versos de quadra quadrada. Nada tenho contra versos básicos ou até mesmo a música simples, e redundante em clichés pré-fabricados, chamada de Pimba. Todos nós cantarolamos numa farra umas brejeirices quaisquer para nos divertirmos e isso é bom. Mozart, ele mesmo, esse génio único, era um rapazito pródigo em escrever pimbalices que tocava e cantava nas tascas por entre copos e amigos, sabias?
O que tenho sim e isso lamento profundamente, é o facto de ser esse pacote (quadra+pimbalhice) elevado ao estatuto de grande arte pelo nosso analfabeto povinho.
Deprime-me a limitação de gostos,a estreiteza de pontos de vista, a incultura do povo ainda por cima aculturado por influências de mau gosto importadas de outras paragens.
Deprime-me esta subida aos palcos, como se fosse coisa prima, a vulgar banalidade, percebes?
Faz lembrar o figurão provinciano que tem no roupeiro 7 fatos todos iguais, um para cada dia da semana, e principalmente ao Domingo,dia de festa quando veste o fato de ocasião do dia de festa...igualzinho aos outros.