Tuesday, 28 April 2009

- Obrigada pelo teu altruísmo. – disse-me ela com os olhos marejados. – É tão raro conhecer pessoas assim.

Tive vontade de lhe questionar o grupo de amigos.

À laia de enquadramento, digamos que não nos damos bem. “Chocámos de frente” algumas vezes, incompatibilizámo-nos, para ser mais singela. Mas quando, quase em lágrimas a ouvi dizer que não tinha como obter apontamentos de determinada matéria, pelo menos não em tempo útil, e apesar de a conversa não ser directamente para mim, simplesmente perguntei-lhe se queria que lhe enviasse os meus. Respondeu a medo que sim mas quase lhe adivinhei o pensamento – é evidente que não mos vai enviar.

Massajar o ego? Sim, claro. É preciso. Mas não se trata disso por aqui. E sabem que não.

Aprendi, acima de tudo pela experiência da vida, que
- há a coisa certa a fazer e a coisa correcta a fazer;
Será a mesma – hum – coisa? Não creio.

Mais, não é assim que determino o meu modo de agir.

Mas afinal de contas o que é a amizade e deverá ser só ela a razão porque somos simpáticos, humanos e companheiros de um outro qualquer?

Já tenho dissertado sobre esta aleatoriedade de amizades, conhecimentos e afins. O que faz um amigo? Como se faz um amigo? Como se reconhece um amigo? E se não formos amigos? Deverei não agir de determinada forma?

Pois, bem sei. Levanto mais perguntas do que exponho razões.

Lembro-me e não consigo descortinar substituto para o ditado “two wrongs don’t make a right”. O modo de agir de um ser que se quer considerar adulto, humano, civilizado e inteligente não deverá ser medido nem tão pouco tabelado ou provocado pelo modo de agir do outro.

Há a história (deliciosa) de alguém que, para estudar o efeito do condicionalismo que certas regras civilizacionais têm, colocou, numa estrada deserta, sem cruzamentos nem vivalma – pleno descampado, um semáforo que ficava muito tempo vermelho. Várias reacções foram vistas:
- A esmagadora maioria dos condutores parou perante o sinal vermelho.
- Uma grande maioria dos condutores esperou pacientemente o sinal ficar verde para continuar a marcha;
- Alguns, ainda que aguardando num primeiro momento e seguindo depois com o vermelho, foram avançando a medo como que olhando para os lados

Estaremos assim tão condicionados, quase hipnodeicamente, a seguir as instruções que nos foram transmitidas? A percentagem, ainda que mínima, de condutores que apenas seguiu o caminho, violando expressamente o sinal vermelho, bem como aquela outra percentagem que pára mas segue em transgressão diz-me que não. Assegura-me que somos condicionados apenas e só enquanto o quisermos e porque queremos. Ainda que algumas respostas possam, de facto ser passivamente inseridas no nosso ID, ele permanece inteiro e inderrogável.

Sermos dotados de livre arbítrio, de podermos a quase todo o tempo escolher o que fazemos é A maior prenda e, como tal, aquela que mais sumariamente será atingida por qualquer tipo de condicionalismo, voluntário, hipnodeico, fascista, amoroso.
(ah, pois é, vejam como misturo tudo. sim, sim, considero que o amor pode ser tão castrador para a pessoa que ama como uma censura estatal ou um regime ditatorial de qualquer natureza.)

Acredito que se devemos fazer ou pensar uma determinada coisa, se conseguirmos, por raciocínios lógicos (ainda que a lógica venha de silogismos tão pessoais como incompreensíveis para os demais) concluir que aquela acção correcta é essa e não outra, não a que nos apetece ou que dá gozo ou que nos dará mais prazer (imediato). Não que com isso declare submissão ou predestinação a uma vida qualquer que será eterna e exteriormente decidida. Nas amizades, no amor, no trabalho, na família, as relações são obtidas pelo que recebemos, pelo que damos e por aquilo que decidimos.

A decisão é sempre individual.
Onde cabe então as nossas explosões, as raivas, os ódios, o mau feitio? Lado a lado com tudo o que disse. De mãos dadas, diria. É-nos devida a ira. Devemo-nos permitir à raiva e às explosões. Exactamente porque e para que continuemos dotados de uma liberdade natural, material.

Falando pessoalmente posso afirmar que já tenho saído bastante magoada deste modo de decidir e agir.
Já me tenho deparado com o que considero verdadeiras injustiças.
Já me tenho permitido sentir profundamente injustiçada, que poucas pessoas existem que me valorizam como devo, atrevo-me a dizer, darem-me todo o crédito que mereço.
E não digo que este “meu estranho modo de vida” é “mais forte que eu” ou “é assim que sou”.

Tenho muito mau feitio. Sou chata, arrogante, elitista e impaciente. Mas faço o que devo. Faço o que é correcto.
Se há pessoas, amigos, conhecidos e familiares que me banalizam? Que até me “têm por certa”? Há-os de certeza.
E então considerar-me-ei superior por agir assim? Talvez, não sei. Mas quando cedi de bom grado os meus apontamentos à colega, quando socorro um familiar que me destratou, quando respondo com bons modos a quem me trata com incorrecção ou quando perdoo um amigo que não me considera faço-o com consciência tranquila, certa de que faço a coisa correcta.

6 comments:

once said...

"é assim que sou" .. frase que, ao contrário de ti, não me canso de repetir.

Fizeste bem.
Por mais nada, no meu ponto de vista, que pelo facto de que gostarias que o fizesssem contigo. E aqui tabelo eu a minha maneira de ser por um ditado muito simples: não fazer a alguém aquilo que não gostaria que me fizessem.

e depois .. os amigos mais que "feitos" "conquistados" ou "arranjados" simplesmente mantêm-se. Por vontade de ambos.

Este postal dá para muitos postais minha Amiga, pois é muito e diverso e profundo tudo o que abordas :)
Gostei imenso de ler.

Um beijo

nocas verde said...

Obrigada, Amiga.
Se é muito e profundo e diverso passo a bola para esse lado que o fazes em assuntos com aquelas três característcas muito e melhor que eu. :)

e olha que o teu comentário...

o ditado, fosse ele universalmente cumprido, tornaria um postal como este desnecessário (se é que o não é já - riso)
beijos

drengo said...

hoje, a (pouca) blogosfera que conheço andou a trocar-me as voltas, e a fazer-me perceber porque leio quem leio...

li noutro lugar algo que tem a ver com a "consciência". com a vozinha que temos cá dentro (se a tivermos), e nos ajuda a viver bem connosco. e com os outros. hoje, o Grilo Falante andou nos sonos e sonhos de muita gente (digo eu..)

if two wrongs do not make a right, perhaps three will, é uma versão que brinca com a tradicional, mas que depois "viro do avesso": se dois actos de bondade não consertam uma maldade, talvez três consigam.

(e porque hoje já tive de dizer "adeus" a uma colaboradora, permita-me sair sem despedir...)

nocas verde said...

Saia então, caro amigo.
tudo de bom para si e para os seus :)

silvia.marau said...

Queria escrever tão bem como tu, para agora te escrever palavras lindas, mas só consigo te escrever...
Obrigada por seres assim,
Obrigada por seres Minha Amiga (que tenho por garantida, mesmo, ai de ti),
Obrigada

nocas verde said...

Minha Querida Sílvia,
A Ti, obrigada por me considerares como Garantida. Sabes, e muito bem, que não é a esse "garante" que me refiro...
O teu comentário, ao contrário do que afirmas, repletos do essencial, sem histórias da carochinha nem ocupando três folhas de teste :)
A Ti, my Dear
o melhor
grata eu por leres esta verde
kisses