Thursday, 26 November 2009

O Natal na minha terra

(pego, descaradamente, no título de um concurso que por aqui se vai fazendo)

Sou de Lisboa.
Os meus pais são de Lisboa, os meus avós são de Lisboa, alguns dos meus bisavôs são de Lisboa.
Não tenho terra, portanto.
Não no sentido que fui ouvindo os meus colegas. "Vou passar o Natal à terra".

Passei o Natal, o carnaval e todos os dias na “minha terra”. As férias eram passadas na terra de outros, não na minha.

Cresci num bairro lisboeta. Daqueles criados para os trabalhadores das fábricas implantadas ali perto. Reuniram-se ali três gerações o que provocou, a certa altura, serem quase todos primos. Nascia-se ali, namorava-se por ali, casava-se ali. Quase um clã enorme.

As ruas eram pequenas com casas pequenas de cada lado, cortadas por avenidas centrais.

Tínhamos a D. Zaida que vendia coisinhas de supermercado em casa. A D. Berta que fazia os arranjos de costura. A D. Lálá que vendia gelados no Verão e pirolitos no Inverno. O Sr. Romão que era canalizador, o meu pai que arranjava todos os electrodomésticos e outros tantos que conhecíamos pelos nomes que faziam pequenos serviços. A dada altura poderíamos ter sido quase auto-suficientes e não eram raras as vezes que sabíamos sempre que alguém estranho entrava no “bairro”.

O Natal?
As ruas eram enfeitadas. Pais, filhos e filhas deslocavam-se à serra ali perto para apanhar pinhas e musgo. As primeiras eram assadas em fogueiras no meio das ruas pequeninas sem carros, o musgo colocado nos presépios.

Havia umas famílias que iam comprar "rebuçados" a Espanha e que vinham recheados de brinquedos que não existiam cá em Portugal. Nunca soube muito bem como se processava aquilo, era mágico. As mães encontravam-se em lanches proibidos a crianças e depois apareceriam as prendas nas árvores.

O bairro inteiro começava a cheirar a Natal. Nas ruas “grandes”, como lhe chamávamos, apareciam carros com matrículas estrangeiras; os familiares de França, Luxemburgo, Inglaterra que chegavam.

As mães e avós começavam a cozinhar afincadamente. Era chamada a D. Maria, mulher enérgica, para esticar a massa. As mães competiam pelos melhores molotov’s, os melhores sonhos.

No dia de Natal as crianças vinham todas para a rua mostrar o que tinham recebido.
Era difícil decidir onde seriam passados a noite e o almoço de Natal. Não era estranho na noite de Natal haver famílias a deslocarem-se de casa em casa – o equivalente “bairrista” de ir “à terra” – e, também, no almoço. Perguntei-me sempre porque não faziam um ano em cada casa, mas as mulheres não prescindiam de mostrar a beleza das suas decorações, das suas mesas.

Havia, claro, famílias Capuleto e Montéquio. Eu que o diga, nascida de um amor entre uma Julieta e um Romeu com melhor fim. O Natal era mais estranho nestes casos. O bairro era tacitamente dividido em zonas não se cruzando nas peregrinações natalícias. Era perigoso. Houve “natais” estragados.

As férias de natal eram passadas na rua. Não havia frio ou gelo que resistisse às correrias, às apanhadas, aos jogos de futebol, às competições de berlindes, ao elástico. As avós e mães promoviam lanches de bonecas.

O Natal era desprovido de religião neste meu bairro. No entanto, ou apesar disso, anos houve em que as prendas em minha casa eram menores para poder dar também aos filhos dos que não tinham trabalho. Nesses anos eram os amigos que dividiam connosco a ceia, não os familiares. Amigos de criação, era como se chamavam. Sem questões, sem empréstimos. Só amizade.

O natal na minha terra era assim. Um Natal sem terra, no coração de Lisboa. Sem neve, sem igrejas pequeninas, sem viagens longas.
Um Natal na cidade

6 comments:

CPrice said...

Gostei tanto!

:))

nocas verde said...

Obrigada... mesmo.
:))

Luísa said...

É muito gira esta sua evocação, Nocas. Tem coisas dos meus Natais, também lisboetas. As diferenças apenas se devem, no meu caso, a uma forte «interferência» transmontana. ;-)

nocas verde said...

Sabe Luísa, aquilo que mais acho engraçado é não haver no meu Natal qualquer influência que não as lisboetas... pelo menos descaradas. Absorveram, claro, tradições daqui e dacoli mas éramos todos muito lisboetas...
ainda bem que gostou :)

Gi said...

Gostei muito, noquinhas.
Quanto a mim as minhas terras são tão longínquas que ir passar o Natal à terra era quase como uma recriação do Natal do Novo Testamento. :)

nocas verde said...

sério, Gi?
engraçado este cruzar de "terras".
ainda bem que gostaste:)