Wednesday, 6 May 2009

Olhos Castanhos - Tejo

Do seu quarto ouvia os vendedores passarem.
Acordava sempre primeiro que todos e ficava uns momentos a esticar os ossos, feliz, muito feliz. Tinha, como sempre, um longo dia pela frente.

Como os Senhores não estavam, teria tempo para fazer o que há muito queria: seguir a larga Avenida até ao fim. Disseram-lhe que lá estaria o Rio. Tejo, disseram-lhe.

Na cozinha fez café.
- Bom dia, Maria José.
- Bom dia, minha senhora.
Sentaram-se as duas na grande mesa de madeira onde repousava o alguidar com a massa para o pão, o cesto da fruta e o jarro de vinho tapado com o belo naperon.
- D. Quinita… depois ensina-me a fazer estes naperons? São lindos.
A mulher riu-se. Gostava muito desta menina que lhe tinha aparecido porta dentro. Da sua alegria e traquinice. Cantava o dia todo, mesmo quando tinha que fazer os trabalhos mais duros.

O gato Chico pulou para o colo dela.
- Esse gato! Nunca o vi aproximar-se de ninguém. É arisco e mal disposto com toda a gente.
- Somos iguais, Senhora. Ele e eu.
- Selvagens? – rindo.
- Feios. – fez uma festa no focinho do bicho percorrendo com um dedo uma grande cicatriz, feia e disforme. O rabo, cortado por um cão malvado, acabava num nó esquisito.

Saiu da casa com o recado da D. Quinita de comprar peixe na Ribeira.
- Não te preocupes, menina. Vês logo os pescadores e as peixeiras.

Habituada como estava a grandes caminhadas foi de ânimo leve que se pôs ao caminho. Tirou dois tomates directamente do tomateiro e colocou-os cuidadosamente no bolso do avental. Com o lenço – o seu maior tesouro, comprado ao pitrolino com o seu primeiro dinheiro – fez um nó na cabeça e seguiu, cantando.

E, pareceu-lhe de repente, estava em frente ao Rio. Tejo, disseram-lhe.
Os miúdos brincavam na escadaria onde as ondas pequeninas batiam. Atiravam água uns aos outros e os mais afoitos atiravam-se do cais com grande gritaria. Incapaz de resistir tirou as socas e desceu os três degraus até a água lhe tocar nos dedos. As saias ficaram molhadas com uma onda maior mas não se importou.
E se eu fosse assim? E se tivesse nascido aqui e não naquele buraco imundo, seco e árido. Poderia ter vindo para aqui brincar como eles?

O som dos pescadores e das peixeiras chegou-lhe aos ouvidos. Sem medo, aproximou-se e procurou quem lhe parecesse de confiança. Um rapaz andava por ali tirando caixas de peixe que ainda saltavam equilibrando-se entre a chata e a doca para depois os colocar nas canastras das peixeiras. Aquelas depois de cheias eram diligentemente colocadas na cabeça das peixeiras que seguiam o seu caminho como se fossem artistas de circo, como Maria José tinha visto neste último Natal.

- Olha, olha! – disse o rapaz quando a viu – temos petinga nova!
As peixeiras riram.
- Olha! E é maneirinha como tu gostas, ó Zé.
Percebeu que era de si mas não fazia ideia das insinuações que fizeram.
- Quero comprar sardinhas. - enquanto o olhava. Este Zé tinha uma grande cicatriz que lhe atravessava a face, ainda mais escura que o resto da pele, torcida e negra pelo Sol com os uns olhos verdes de cor roubada ao Rio.
- Tenho aqui a mais vivinha, menina! Traga cá a sua canastra! – Zé ficou impressionado por Maria José não ter desviado os olhos. Não sabia, ela, destas lides da timidez e recolhimento femininos. Não sabia corar. Não sabia – nunca saberia – baixar os olhos.
- Não tenho canastra.

Deolinda era a casamenteira da Ribeira. Era mais que isso como viria a saber. Reparou nestes dois jovens e ofereceu-se para vender uma. As mãos gordas da Deolinda tentaram alcançar o lenço de Maria José para lhe mostrar como se fazia o farrapo mas esta esquivou-se com um não sonoro.
- Este não, senhora!
- E é arisca, Zé! É arisca. Pois não consegues levar a canastra sem farrapo, menina!
- Vocemessê não se preocupe. – arrancou uma das suas saias (a de baixo era já muito velha) e rapidamente imitou o gesto que tinha visto uma peixeira fazer.

O riso espantado de Deolinda deu-lhe a certeza que tinha feito bem e depois de entregar o dinheiro ao Zé pescador ficou parada a olhar para a canastra.
- Vem cá, pequena! Eu mostro-te como se faz. Por agora seguras com as duas mãos. Daqui a uns tempos até parir com a canastra na cabeça consegues!

Depois de agradecer seguiu o seu caminho devagar. Era difícil de equilibrar e o farrapo escorregava na seda do lenço.

- Esta é que te dava jeito, Zé! – ouviu ainda dizer.
- … sim, sim. Ainda a domestico, Mãe Linda, Vai ver…
Ouvi-os rirem-se os dois.

Ou eu a ti, pescador.

8 comments:

drengo said...

...grande reviravolta, com a piquena.

gostei. tem mais?

nocas verde said...

obrigada, Sire, mesmo.
(já leu os outros na label olhos castanhos?)
tenho mais, sim... wait and see...

drengo said...

certo. vou olhar nos olhos castanhos.
...mim waita.

once said...

gosto disto. E por engraçado que te possa parecer (ou talvez não) vejo-te ali nos genes da menina que se esqueceu do cesto para o peixe. Vejo mesmo!

Beijo e continua .. *

nocas verde said...

Obrigada por waitar, Sire.

nocas verde said...

Querida Once,
Os genes são muito fortes, não são?
obrigada por gostares e pelo pedido.
A menina de olhos castanhos voltará
beijos

Rita said...

Lindo...
Jokas

nocas verde said...

obrigada, Rita
beijos