Monday, 22 February 2010

há muito tempo que não venho a esta casa.
nem me lembro quando.
sei que depois da minha avó morrer vim cá poucas vezes. por ironia, volto cá por outra tragédia. outra? não. A tragédia. percorro as escadas, vejo a foto de família sorridentes, prestando uma homenagem à Matriarca, fabricada pelo fotógrafo, que nunca fizeram na realidade. Sei que o corno, a figa, o ramo de eucalipto e o cordel para espantar o demo estão todos no sítio. recuso-me a pensar como esta casa era enorme, como as quatro escadas me pareciam enormes, como as transformei em escadarias de um palco brilhante, quantas vezes me sentei nelas com a minha Avó, quantos tomates, limões, nêsperas e morangos nós apanhámos e comemos. avancei rapidamente para o que me trouxe. não quis lembrar-me das vezes que fugi para o quarto do tio américo que me abraçava e dava uma nota de vinte escudos. nem olhei para o quarto do tio luis que quando regressava de Inglaterra me enchia de presentes. fui ao quarto do meu tio Mário. o meu último tio. era assustador, este meu tio. dizia a lenda que tinha sido pugilista melhor que o belarmino.
depois de morrer a minha avó vim cá poucas vezes. talvez pouco mais de duas. entregar o meu convite de casamento. entregar uns bilhetes para a revista.
não reparo que tenho companhia. a dulce toca-me ao de leve no braço. tem a minha idade. não teve a minha vida.
abraça-me e chora. o teu tio… nossa senhora! que tragédia!
venho buscar as coisas dele.
já cá vieram todos, sabes? os teus primos, as tuas tias, todos. ficaram só os animais. ninguém os quis.
2 bicos de lacre, 3 pintassilgos, 1 canário. ok. não há problema. os animais eram a única coisa que nos unia, digo alto.
a dulce zanga-se – como nos zangávamos quando brincávamos, quando éramos simplesmente filhas do bairro. o teu tio tinha tanto orgulho em ti. estava sempre a falar de ti. a minha menina, a minha menina. eras a única. a minha nocas. ele tinha um livro, lembrou-se. um álbum ou isso. será que o levaram? não sei onde é que o guardava…
entro no seu quarto. cheira a lixívia. lavei-o todo assim que a polícia saiu… todo aquele sangue… obrigada, dulce. eu sei onde está o livro. o esconderijo era o mesmo, de certeza. o sítio onde ele guardava os cigarros e o dinheiro. onde guardava o único presente que me dava. a menina não mexe aqui, ouviu? só quando eu disser. o livro lá estava.
olha, olha! eu sabia que tu saberias. foi o que eu disse ao meu Alfredo, a nocas sabe onde o timário guardava o livro. ai, mulher, sabes lá tu! as vezes que mostrava esse livro. tira-mo das mãos. aqui estás tu, nos campeonatos de ginástica, nacionais, não foram? se não tivesse acontecido aquele acidente, dizia ele, hoje seria uma ginasta famosa. olha aqui, apontou entusiasmada, o recorte de jornal “comaneci portuguesa sofre acidente e corre perigo de vida”. nunca corri perigo de vida, dulce. olha, olha, aqui está quando ganhaste a marcha cá do bairro. outro recorte do jornal de bairro. aponta para duas meninas pequenas, sorridentes. tu e eu, lembras-te? as melhores da aula, dizia a madame. a minha vida estava ali toda. o meu casamento. uma semana inteira. uma semana? qual o quê, mulher, um mês ou mais! a minha nocas foi a noiva mais bonita que eu já vi. toda de branco. e que classe, repetia. desceu a escadaria sem olhar para elas, como uma princesa! vira a página. mas o mais feliz foi ir-te ver ao Parque Mayer. isso sim. a minha nocas é a mais bonita da companhia. e os actores gostam todos dela.
pára, dulce.
desculpa, nocas. é difícil, eu sei. mas torceu sempre tanto por ti. quando o teu pai morreu, contou-me tudo, ele. como todos queriam que deixasses a escola. uma heroína, era o que ele dizia. pego no livro, abraço-o e reparo na contracapa. tem sangue. oh, nocas, olha. sangue que alcançou o recanto por debaixo da cama onde esteve escondido.
tenho que me ir embora, dulce. as lágrimas estão presas num nó enorme que não aguenta muito mais. oh, dulce, porquê? eu nunca soube nada disto. disse-me que não sabia se queria ir ao meu casamento, nem se dignou a sair da casa dos pássaros quando vim cá entregar-lhe os bilhetes para a revista, deixei-lhos em cima da mesa da cozinha. nunca imaginei.
ele disse-me que estava a preparar uma coisa para te dar quando fizesses vinte e um anos. estava ali num canto mas está tudo destruído. não sei se foi a polícia, se o ladrão.
levo os pássaros.
o canário morre dois dias depois.
foi em fevereiro.
fiz vinte e um anos no outubro seguinte.

nunca soube que o meu tio Américo pensava assim. era bruto, antipático e rude. em pequena tinha medo dele. obrigava-me a comer a sopa só com o som dos passos nas tábuas. a voz grave, come tudo, nocas, senão eu saio do quarto…

porquê? porque nunca é demais dizer vezes demais que amamos…

2 comments:

Luísa said...

Querida Nocas, gosto muito de simpatia e sorrisos. Mas sempre tive uma grande «confiança» nessas pessoas ditas de «mau feitio», que são rudes, sim, porque nunca conseguem deixar de ser autênticas, e é com essa rudeza que vincam a sua autenticidade.
Um beijinho. Já estava com saudades de a «ler» por aqui. :-)

nocas verde said...

querida Luísa,
obrigada por ainda aparecer e sempre com uma palavra amável :)
acho que a compreensão da rudeza enquanto sinal de autenticidade vem com a idade...
tenho (e este postal foi um suspiro disso mesmo) é muita pena que não nos tenham dado tempo para chegar, de facto, a essa "maturidade"...
obrigada, Luísa
também tenho saudades de Vos saber por aí :)