É bom andar na escola.
É bom sentirmos os nossos neurónios provocados, impulsionados a conhecer mais.
Confesso-me "nerd". Sempre gostei da escola e de estudar. Nem sempre gostei da vida escolar e tive por diversas ocasiões atritos e zangas, mas fará tudo parte da normalidade.
Voltei, como sabem, à escola.
A minha experiência anterior no dito ensino superior foi tão diversa e antípoda desta que quase não valerá a pena fazer comparações.
Se bem que me senti a viver um sonho, porque do alto dos meus 19 anos Aquela Escola parecia, aos meus olhos, a versão portuguesa dAquela da "Fame", e também porque sempre soube que seria uma experiência com morte anunciada, fiquei com a sensação que deveria haver mais. As aulas eram na sua esmagadora maioria práticas, com pouca ou nenhuma relação com a cabeça ou com o pensamento. As poucas disciplinas teóricas que tínhamos eram consideradas menores e muitas vezes manipuladas por “valores mais altos” provocando a passagem automática de certos alunos… burros (desculpem a frontalidade). Porque para aquele instituto, ou pelo menos, nessa altura, dançar não exigia pensar; direi até que exigia o oposto.
Para mim, artista auto-imposta que sou, a dança e toda a criação artística é pensar, aliás, PENSAR.
Puxando a brasa à minha sardinha (que, agora que penso, não me passou pelo estreito este Verão… falta grave) é absolutamente fantástico o processo da criação artística pelo exercício da análise, pesquisa e reflexão.
Ainda hoje me provocam lágrimas de riso as descrições que vejo os meus caros pares (se ainda me considerasse bailarina ou, como agora é tão “in” dizer, performer) das suas coreografias. Um chorrilho de palavreado muito provavelmente encontrado em pesquisa no Google sob o termo “palavras estupidamente difíceis para ninguém perceber que sou burro com’ás portas”.
Dizia um excelso professor desta nossa vila que é o mundo da arte, que bailarino não pensa, dança.
Nada estará mais longe da verdade.
Não darei exemplos de peças ou bailarinos que possam ilustrar o que digo porque isso cabe no âmbito de outra das características que me fascina na Arte: a subjectividade.
Uma peça ou um bailarino poderão ser estupendos e geniais para mim e absolutamente medíocres para outro.
Haverá até, como George Balanchine, quem negue essa característica à dança, exigindo dos seus bailarinos a ausência de sentimentos por exacerbação do movimento puro como fim último do movimento.
E isto tudo porquê?
Porque me lembrei de uma colega minha. Miúda fantástica, inteligente, brilhante, a Vida em pessoa. Vê-la dançar era ver a Vida, a Mulher, a Verdade. Corpo fantástico, real, com curvas verdadeiras mas uma energia assustadora. Não me lembro de lhe ver um suspiro de cansaço. Resistiu como poucas aos gritos incessantes para emagrecer, para fazer desaparecer as características que a tornavam tão fantástica e tão única: pensar e viver.
Como já devem ter reparado falo no passado.
Soube há algum tempo que lutava desesperadamente contra bulimia. Não, retiro o desesperadamente da frase. O desespero é de quem assiste ao definhar lento da chama num corpo que se transforma, protege, grita por ajuda contra uma mente que desiste e mente.
Soube há pouco tempo que a luta acabou. Felizmente curada da bulimia mas incapaz de dançar.
E esses fantásticos Senhores da Dança continuam incólumes, insistindo que é necessário ser esquelética e burra para dançar.
Que é necessário entregar e vender a alma, não a Terpsicore mas ao próprio Demo.
Que… nada!
Kirklandps - o video que deixo é de Gelsey Kirkland. Bailarina americana que escreveu um
livro que deveria ser leitura imposta a todo o (a) bailarino (a).